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O que você defende quando diz que não se mete em política?

A política não acontece apenas nas urnas, nos partidos ou dentro dos gabinetes. Ela também está nas pequenas conversas, nas escolhas que fazemos, nas coisas que defendemos e até naquilo que decidimos ignorar. Ou melhor: principalmente no que decidimos ignorar.

Está presente quando decidimos se uma piada preconceituosa merece ser questionada ou apenas ignorada. Quando ouvimos alguém dizer que determinada pessoa “não deveria ter direito” a alguma coisa. Quando discutimos quem merece oportunidades, quem deve pagar impostos, como o dinheiro público deve ser utilizado e quais grupos precisam de proteção do Estado.

Até dentro de casa a política aparece.

Quando uma família divide as tarefas domésticas, quando discutimos quem tem liberdade para sair, estudar ou trabalhar, quando ensinamos uma criança sobre respeito e igualdade.

Todas essas situações carregam ideias sobre como acreditamos que a sociedade deve funcionar.

Por isso, dizer “não gosto de política” não nos coloca fora dela. Tão pouco nos isenta de responsabilidades com o coletivo.

Podemos não acompanhar partidos. Podemos não ter um candidato. Podemos não querer discutir eleições todos os dias. Ainda assim, somos afetados pelas decisões políticas e, principalmente, pelas ideias que sustentamos sobre o mundo.

O problema da imparcialidade aparece quando ela vira uma desculpa para não refletir sobre as consequências das nossas próprias convicções.

Quando deixamos de pensar politicamente, outras pessoas pensam por nós.

E essas decisões chegam à nossa vida, mesmo quando não percebemos.

Se alguém defende a redução de impostos, existe uma discussão sobre quais impostos, quem será beneficiado e como os serviços públicos serão financiados.

Se alguém fala sobre educação, saúde, trabalho, moradia, meio ambiente ou direitos, existe política ali.

Ter posicionamento político é desenvolver consciência sobre essas questões. É perguntar: quem é afetado por essa decisão? Quem ganha? Quem perde? Quem está sendo ouvido? Quem está sendo deixado de fora?

E o mais importante é refletir: se sua posição social está confortável suficiente para que não se precise “pensar em política”, quer dizer que todos os outros seres humanos, muitos que não tem esse privilégio, não precisam nem merecem sua atenção?

A política começa muito antes do voto.

Começa quando percebemos que nossas escolhas individuais fazem parte de uma sociedade e que aquilo que defendemos para nós também produz consequências para outras pessoas.

Por isso, talvez a pergunta não seja se queremos ou não nos envolver com política.

A pergunta é: que tipo de sociedade estamos ajudando a construir com aquilo que defendemos, aceitamos, questionamos e escolhemos não questionar?

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