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A história política brasileira ganhou, neste domingo (25), um novo capítulo. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, conquistando seu quarto mandato à frente da Presidência da República. O resultado tem um significado especial: depois de terminar o primeiro turno atrás do adversário, Lula conseguiu reverter o cenário eleitoral e construir uma vitória que entra para a história da democracia brasileira.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula recebeu 64.256.232 votos, correspondentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos de Flávio Bolsonaro, que obteve 48,21%. A diferença de pouco mais de 4,4 milhões de votos confirmou uma virada construída ao longo de uma campanha marcada pela polarização, pela mobilização popular e pela disputa em torno dos rumos do país.

Para compreender o peso desse resultado, é necessário voltar ao início da trajetória de um dos personagens mais influentes da política nacional.

Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no Agreste pernambucano, Lula cresceu em uma família numerosa e enfrentou dificuldades econômicas desde a infância. Ainda criança, migrou com a mãe e os irmãos para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Antes de entrar na política, trabalhou como engraxate, office-boy e metalúrgico. Formou-se torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), experiência que marcou sua identidade pública e sua aproximação com as reivindicações dos trabalhadores.

Foi no ABC Paulista, região industrial de São Paulo, que Lula começou a construir sua projeção nacional. Como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, liderou grandes mobilizações por melhores salários e condições de trabalho durante a ditadura militar. As greves do fim da década de 1970 ajudaram a fortalecer o movimento sindical e a ampliar o debate sobre democracia e participação política no Brasil.

Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), que reuniu sindicalistas, intelectuais, militantes de esquerda e representantes de movimentos sociais. A partir dali, iniciou uma trajetória eleitoral marcada por derrotas, reorganizações e mudanças de estratégia. Disputou a Presidência em 1989, 1994 e 1998, sem conseguir chegar ao Palácio do Planalto. Em 1986, havia sido eleito deputado federal constituinte, participando do período de elaboração da Constituição de 1988.

A vitória presidencial veio em 2002, quando Lula derrotou José Serra e assumiu o governo em janeiro de 2003. Seu primeiro mandato ficou marcado pela expansão das políticas de transferência de renda, pela consolidação do Bolsa Família e por iniciativas de combate à fome e à pobreza. No segundo mandato, entre 2007 e 2010, o governo ampliou investimentos em infraestrutura, fortaleceu programas habitacionais e acompanhou um período de crescimento econômico e expansão do emprego.

Esses resultados ajudaram a consolidar sua popularidade, embora os governos também tenham enfrentado críticas relacionadas à condução econômica e a escândalos de corrupção, entre eles o Mensalão. O episódio atingiu dirigentes do PT e aliados políticos e se tornou uma das principais crises de sua primeira passagem pela Presidência.

Ao deixar o cargo, Lula manteve influência na política nacional, mas sua trajetória sofreu uma reviravolta com a Operação Lava Jato. Condenado em processos relacionados às investigações, foi preso em abril de 2018 e permaneceu detido por 580 dias. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações dos processos julgados pela Justiça Federal de Curitiba por incompetência daquela vara e reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no caso do tríplex. As decisões restabeleceram seus direitos políticos e permitiram seu retorno à disputa eleitoral.

Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro em uma eleição apertada, marcada por forte polarização. Sua volta à Presidência, em janeiro de 2023, representou a retomada de um projeto político que havia sido interrompido após os governos petistas e os anos de investigações, disputas judiciais e oposição ao partido.

O terceiro mandato trouxe novamente para o centro do debate políticas sociais, programas habitacionais, investimentos públicos e a atuação internacional do Brasil. Também enfrentou dificuldades de articulação no Congresso, críticas sobre gastos públicos e disputas em torno da economia e da segurança. Esse conjunto de fatores formou o cenário sobre o qual os eleitores decidiram a eleição de 2026.

A virada que entrou para a história

A disputa deste ano apresentou um desafio diferente para Lula. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente obteve 45,16%. O resultado indicava uma eleição difícil e exigia uma mudança de ritmo na campanha petista.

Nas semanas seguintes, Lula intensificou a comunicação direta com os eleitores, ampliou a mobilização nas redes sociais e voltou a ocupar as ruas ao lado de apoiadores, movimentos sociais e lideranças políticas. A campanha procurou dialogar com segmentos que não haviam garantido vantagem suficiente no primeiro turno, enquanto o campo bolsonarista buscava transformar o desempenho inicial de Flávio em uma vitória definitiva.

O resultado de domingo confirmou a mudança de cenário. Lula tornou-se o primeiro candidato na história das eleições presidenciais brasileiras a terminar o primeiro turno atrás de um adversário e, ainda assim, vencer a disputa no segundo. A virada acrescenta um capítulo inédito à sua biografia política e demonstra a capacidade de mobilização de uma liderança que, aos 80 anos, continua no centro das principais decisões nacionais.

A vitória também representa a continuidade de uma disputa política que ultrapassa a rivalidade entre dois candidatos. De um lado, Lula defende a manutenção e a ampliação de políticas sociais, a participação do Estado no desenvolvimento econômico e uma atuação internacional baseada no diálogo multilateral. Do outro, Flávio Bolsonaro representa a continuidade do campo político construído pelo pai, Jair Bolsonaro, com uma agenda conservadora e críticas às administrações petistas.

O resultado das urnas mostra que a eleição permaneceu dividida, apesar da vantagem final de Lula. Mais de 59 milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro, o que evidencia a força do bolsonarismo e a permanência de uma oposição numerosa. A vitória presidencial, portanto, não elimina a polarização nem garante, por si só, facilidade para governar.

A história registrou a vitória. O próximo capítulo será escrito pelas decisões de governo e pela capacidade de responder às expectativas de uma sociedade que, embora tenha escolhido seu presidente, permanece profundamente dividida sobre os caminhos do Brasil.

Coluna Política em Dia

Com João Zito Silva e Juliana Morais

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