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O FAROL E AS CINZAS

Preferia o silêncio. Era amante do silêncio. Aquele instante era ele ali, vivo, traduzido

em lembranças. “Todas as ilusões começam a se despir no instante em que tudo

silencia” – sua frase mais famosa, quase um bordão, era lembrada entre fumaças de

cafés e cigarros, além de muitos, muitos papéis organizados, de forma espartana.

Uma semana depois do seu falecimento, a pequena família e alguns amigos o

eternizavam nas distintas leituras que cada um nutria sobre ele.

Não era um ambiente triste, mas despudoradamente saudoso, ali no seu cemitério de

livros, como costumava chamar sua biblioteca, sua personalidade estava sendo

dissecada… Os irmãos, dois, trariam a baila uma das principais questões sobre a sua

personalidade: como caçula da família, até certa altura da vida era tido com uma das

pessoas mais afáveis e doces. Teria se transformado em um ser ácido, irônico, descrente

da essência humana, quase um pessimista… não fosse a admirável discrição que tinha

sobre a opinião alheia. Individualidade para ele era um conceito sagrado. Podia não

acreditar em grande parte das pessoas, mas defendia e admirava o princípio maior da

expressão alheia: a liberdade.

A viúva, ao lado dos três filhos, relendo alguns manuscritos entre notas e rubricas,

ressaltava o hábito de em noites mais profícuas, quando varava as madrugadas até o

amanhecer, o via com olhos de satisfação, louco para devorar um bife acebolado,

cortado em tiras, e um refrigerante, sempre servido às 6h da manhã, antes de tirar as

suas duas horas de sono, quando sentia-se revigorado para ministrar aulas sobre

Comunicação Social na Universidade Federal, às 10h.

Quase nunca reclamava da vida, mas há muito não distribuía sorrisos gratuitamente.

Não se considerava um ser mal-humorado, mas sim, sério. Quem o conhecia há mais de

30 anos entendia que aquilo era tudo blindagem. Sua Geriatra que o diga. Amiga neste

período, esqueceu inúmeras vezes em que uma consulta se transformava em um velho

bate-papo entre amigos, com direito a furtivos, porém raros, goles de um malte escocês

em fim de expediente e por isso era sempre o último a ser atendido, coisa que aceitava

com imensa satisfação.

Falava sobre tantas coisas, principalmente sobre cultura gótica, seu assunto predileto.

Para ele muito além dos estereótipos de tristeza e pessimismo o gótico trazia,

particularmente na obra do pintor inglês Joseph Wright , as nuances do lado iluminado e

sombrio do ser humano, para a obra “Experimento com um pássaro em uma bomba de ar,

pintura que a sua amiga detestava.

Os filhos lembravam o lado humanista, pouco assumido para os demais. Muitas vezes

reunia as duas garotas e o mais velho e saiam a esmo nas noites de sábado, em busca de

famílias carentes para distribuição de feiras. Assistencialismo, assumia. Levava também

a tiracolo um ou dois livros, e quando acreditava que possuía uma brecha, tentava a

convencer quem estava com fome, a se alimentar com novas ideias. Para ele, a melhor

religião eram as atitudes.

Os três filhos, em plena adolescência, lembram o dia que eles mesmos denominaram de

“metamorfose”. Uma noite teria chegado em casa, noite de chuva, e procurava com um

envelope amarelo nas mãos, a sua esposa. Ela chegaria logo em seguida, 40 minutos

depois. Seria uma noite de sussurros, choros, porém de discrição. Tudo tratado a quatro

paredes. Lembram de ter ouvido através da porta do quarto, a única palavra audível para

aquela situação: engano. Não se sabe se proferido por ela ou por ele. Nunca mais o

veriam rir, nem tão pouco ser afável como antes. Seu olhar sempre perdido, só voltava a

brilhar quando ouvia seu compositor predileto “Cole Porte”. Raramente solfejava algo

mas quando assim o fazia era previsível a música “Night and Day” uma das pérolas de

Porter.

Segundo os mais próximos, as mágoas deveriam estar no seu Atestado de Óbito.

A viúva socióloga, ao telefone, recusava a homenagem que a Universidade insistia em

prestar. Conhecia as prerrogativas do marido, seja para ensino, pesquisa ou dinheiro.

Sempre afirmava que teria deixado a abnegação pelo ofício em alguma esquina da

cidade. Era um prostituto de ideias conscientes. Afirmava que alunos, em sua maioria,

eram “judas juvenis”, mas continuava na academia pois os raros que se destacavam

entre os cascalhos, eram verdadeiras joias.

A dúvida de todos, naquele fim de tarde, estava prestes a ser elucidada. Onde seriam

jogadas as cinzas do velho professor? A abertura de um envelope, com aviso apenas

para ser lido após a sua morte escrito à mão, encerraria o mistério. A geriatra pediu

espaço para a leitura, no que foi atendida e respeitada: Minhas cinzas têm lugar certo, e

devem repousar aos pés do pequeno farol, que ilumina a baía, cerca de 59km do nosso

litoral até ele. Meus fins de tarde sempre tiveram poesia e leveza, cada vez que o

mirava. Preferia não ter um apego a um lugar ou espaço físico, mas até o último instante

da minha vida, levarei a imagem daquele que, com luz própria, me enchia de esperança

para cada novo dia. O farol já não será mais o meu pequeno, onde diluía em solilóquios

meus poucos sonhos. Agora eu serei do Pequeno Farol, e lá minhas ideias descansarão

na fluidez do vento, seja em que direção for. Voltei a amar a vida pela luz daquele farol.

Este desejo deverá ser cumprido.

Apenas duas pessoas entenderiam que o Farol era sim uma das mais distantes

metáforas, sobre a sua própria vida, mas que ainda assim, aquele desejo simbólico seria

respeitado.

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